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7 de novembro de 2026

Eles Vão Arrumar

Memória, patrimônio e o olhar sobre aquilo que foi deixado para trás.

lcyconcept

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Eles Vão Arrumar

Eles Vão Arrumar

INTRODUÇÃO

Desde menino, carrego um olhar que talvez tenha definido boa parte da minha trajetória: diante de algo bonito, eu me encantava; diante de algo degradado, mal cuidado ou “fora do lugar”, eu pensava: “Eles vão arrumar.” Décadas depois, ao voltar à Galeria Metrópole, no centro de São Paulo, reencontrei aquele menino — e percebi que a frase já não podia ser a mesma.

A Galeria continua sendo um extraordinário patrimônio modernista, hoje atravessado por um movimento de reinvenção ligado à economia criativa. Mas também revela as marcas de décadas de abandono e de uma relação muitas vezes extrativista com o patrimônio. Foi dessa visita, dessa memória de infância e desse incômodo que nasceu este texto: um texto sobre memória, patrimônio, cidade e, sobretudo, sobre o olhar, aquele que primeiro percebe e, talvez, um dia se transforme em responsabilidade.

E você, o que vê quando olha para aquilo que foi deixado para trás?

TEXTO

Desde muito pequeno acompanhei meu pai em viagens pelas estradas, vendo o mundo passar rápido através das janelas sobre rodas. Assim como ficava extasiado diante das paisagens naturais, do mato, dos animais e da vida acontecendo nas margens das estradas, adquiri também o hábito instintivo de reparar naquilo que estava “fora do lugar”, nas coisas mal cuidadas, degradadas, no que era feio e estragado. E então dizia para mim mesmo, como quem queria consolar aquele incômodo: “Eles vão arrumar.”

Esse sentimento cresceu comigo e me acompanhou em minhas andanças pelo Brasil profundo: Amazônia, Brasil Central, Norte, Nordeste e Sul. Estradas, cidades, pequenas comunidades, paisagens transformadas pela ocupação humana. Nada parecia escapar a esse olhar que, ao mesmo tempo em que se encantava com o que encontrava, também procurava aquilo que havia sido esquecido, abandonado ou simplesmente deixado de lado. Talvez esteja aí uma das raízes da minha formação profissional, desse interesse que me levou pelas artes, pelo design, pela arquitetura, pelos interiores, pelo paisagismo e, mais tarde, também pelo patrimônio e pela hospitalidade. Afinal, se “eles não arrumaram”, quem sabe seja eu quem deva fazer alguma coisa a respeito.

Tenho vagas lembranças de, ainda pequeno, passar pela então recém-inaugurada Galeria Metrópole, no centro de São Paulo, na Praça Dom José Gaspar, entre a Avenida São Luís, a Rua Sete de Abril e seus arredores, ao lado da Biblioteca Mário de Andrade. Era um lugar extraordinário para uma criança. Lojas de luxo, bares, boates e restaurantes, acessos generosos por várias ruas, quatorze escadas rolantes, um amplo jardim interno a céu aberto e o glorioso Cine Metrópole. Nos anos 1960 e início dos anos 1970, a Galeria era um dos pontos sofisticados da elite paulistana, frequentada também por universitários, intelectuais e artistas. Eu me lembro de chegar ali de mãos dadas com minha mãe. São lembranças fragmentadas, como normalmente são as lembranças de uma criança, mas a sensação permaneceu.

A partir de meados dos anos 1970, com a degradação do centro, o aumento da criminalidade e a chegada dos shopping centers, a Galeria perdeu seu glamour. As lojas de luxo foram sendo substituídas por agências de turismo, casas de câmbio, restaurantes self-service e serviços mais simples. Décadas depois, nos anos 2010, houve uma nova tentativa de retomada, com bares e baladas, como o Grand Metrópole e o Mandíbula, além de espaços culturais, como a livraria Tapera Taperá. Mais recentemente, depois da pandemia, começaram a surgir estúdios de design, ateliês, galerias de arte, brechós, cafés e marcas autorais, acompanhados por feiras e eventos. A Galeria passou então a ser novamente percebida como uma espécie de oásis modernista no centro de São Paulo, preservando sua arquitetura e seu jardim interno.

Dias atrás voltei à Galeria Metrópole. Fui conferir de perto esse movimento de reinvenção e, antes mesmo de perceber o que havia de novo, aconteceu uma coisa curiosa: voltou o menino. Aquele menino que chegava ali de mãos dadas com a mãe. Voltou também o entusiasmo de reencontrar aquela sensação que havia ficado guardada desde a infância. Mas voltou, junto com ele, o velho hábito de olhar. Comecei novamente a reparar naquilo que estava “fora do lugar”, nas coisas mal cuidadas, naquilo que estava degradado, no que poderia estar melhor, no que era feio e no que estava estragado. E dessa vez eu não consegui mais dizer para mim mesmo, como fazia quando criança: “Eles vão arrumar.”

Porque hoje eu já sei algumas coisas que aquele menino não sabia. Depois de décadas trabalhando com o mercado, com real estate e com todo o seu ecossistema, percebi que muitas vezes não é que não tenham conseguido arrumar. É que não quiseram arrumar. Ou, talvez, não tenham percebido por que deveriam fazê-lo.

É comum que o valor do patrimônio cultural não seja percebido. O espaço é tratado de maneira extrativista: interessa aquilo que ele pode produzir, aquilo que pode render, aquilo que pode ser explorado. Pouco importa, muitas vezes, aquilo que ele representa — sua história, sua arquitetura, sua memória, sua capacidade de produzir pertencimento. E talvez seja justamente aí que esteja o maior desperdício.

A Galeria Metrópole ainda está ali. Ainda existe. Ainda tem sua arquitetura, seu jardim, seus espaços, suas proporções, sua memória. E há também algo novo acontecendo: ateliês, estúdios, cafés, galerias, brechós, marcas autorais, eventos, pessoas criando e ocupando novamente aquele espaço. É possível que a economia criativa esteja encontrando ali uma nova possibilidade de vida.

Mas a reinvenção não apaga automaticamente a degradação. Ainda há muito a ser cuidado, muito a ser recuperado, muito a ser percebido. E talvez essa seja justamente a parte mais interessante dessa história, porque recuperar um patrimônio não deveria significar simplesmente restaurar paredes, trocar revestimentos ou pintar fachadas. Deveria significar reconhecer o valor daquilo que já existe e permitir que esse valor volte a produzir futuro.

Quando saí da Galeria, fiquei pensando naquele menino. Ele não sabia nada sobre patrimônio. Não sabia nada sobre real estate. Não sabia nada sobre economia criativa. Não sabia sequer explicar por que algumas coisas bonitas o encantavam e outras, quando estavam mal cuidadas, lhe causavam incômodo. Ele apenas olhava. E talvez tenha sido esse olhar que me trouxe até aqui.

Hoje, décadas depois, continuo olhando. A diferença é que agora sei que olhar também pode ser uma forma de responsabilidade. Por isso quero continuar acreditando que a Galeria Metrópole pode se reinventar; que aquele patrimônio possa voltar a ser percebido pelo valor que tem; que as pessoas que hoje ocupam seus espaços possam construir uma nova camada de sua história.

E que, algum dia, um menino passe por ali, talvez de mãos dadas com sua mãe, olhe para aquele lugar e, diante de alguma coisa que um dia esteve degradada, possa pensar, com a mesma esperança que eu tinha quando criança:

“Eles conseguiram arrumar.”

Um universo de arquitetura, arte, design, hotelaria, memória e experiência.

LCY Universe — Laccy SilvaEntrar