Não há nada de errado com as tendências. Elas têm um papel importante: mostram movimentos culturais, estéticos e de comportamento que começam a ganhar força na sociedade. São como mapas do presente, que revelam vontades, interesses e mudanças já em andamento. Observar esses movimentos faz sentido. Segui-los sem questionar é outra coisa.
Criar algo novo exige outra atitude. É como tomar um café com o Tempo e o Futuro. Em certo momento, o Tempo faz uma pergunta: “O que você espera do futuro?” Talvez a única resposta possível seja: “Que um dia ele se torne presente.” A resposta parece simples, mas muda a forma de pensar a criação. O futuro não é um lugar onde encontramos respostas prontas. É uma possibilidade que só se realiza quando alguém tem coragem de trazê-la para o presente. É nesse espaço que surge a autoria.
Uma tendência aparece quando muitas pessoas passam a compartilhar comportamentos, linguagens, valores e formas de expressão. Mas ela não cria um movimento. Apenas mostra que ele já existe. Sua natureza depende da imitação e da repetição. Se ninguém repetir um gesto, uma linguagem ou uma ideia, ela não se torna um fenômeno cultural. Aí está talvez o maior paradoxo das tendências. Toda tendência começa com um gesto autoral, mas deixa de ser autoria quando outras pessoas passam a repeti-lo. Não percebemos uma tendência no momento em que ela nasce. Primeiro, alguém nota algo que ainda não foi visto. Depois, cria uma linguagem. Outras pessoas começam a reproduzi-la. Só então identificamos um padrão e damos um nome a ele.
Chamamos esse padrão de tendência. Ou seja, só reconhecemos uma tendência depois do ato criativo. Por isso, é comum o mercado cometer um erro ao falar de inovação: acreditar que acompanhar tendências ajuda a prever o futuro. Mas uma tendência não mostra o que ainda virá. Ela registra o momento em que uma inovação começa a deixar de ser uma exceção e se torna uma referência. Quando o mercado finalmente dá um nome ao que foi criado, o criador já está buscando outra resposta.
O problema, portanto, não são as tendências. Ele começa quando elas deixam de ser algo a observar e passam a ser um método de criação. É então que surge algo mais preocupante do que a repetição de estilos: um lento enfraquecimento da cultura. Quando buscamos respostas apenas nas tendências, deixamos de investigar o que torna cada lugar único. A memória perde espaço para a novidade. A cultura dá lugar ao repertório. A escuta é trocada pela aprovação do mercado. Em vez de perguntar “o que este lugar tem a dizer?”, passamos a perguntar “o que está funcionando?”. Parece uma pequena mudança, mas transforma por completo o processo criativo.
Toda cultura nasce de uma forma própria de interpretar o mundo. Ela é feita de memória, afetos, conflitos, paisagens, sotaques, modos de viver e histórias compartilhadas. Um projeto baseado apenas na observação de tendências pode parecer atual, mas corre o risco de não pertencer de verdade a lugar algum. Pode perder suas raízes, sua história e sua capacidade de criar significado. Há uma linha quase invisível entre tendência e massificação. Quando cruzamos essa linha, a autoria deixa de estar no centro da criação. O que antes era descoberta se transforma em fórmula. O que antes era linguagem vira repertório. O que antes envolvia risco passa a trazer segurança.
As receitas se tornam eficientes justamente porque podem ser repetidas. Mas aquilo que pode ser reproduzido sem fim dificilmente cria uma nova linguagem cultural. Não se trata de rejeitar referências. Elas ampliam nosso repertório, e toda criação conversa com o que veio antes. O problema surge quando o repertório deixa de inspirar e passa a ocupar o lugar do pensamento. A cultura avança pela interpretação; a repetição apenas aumenta o que já foi aceito. Talvez essa seja a diferença principal entre seguir tendências e produzir cultura. As tendências costumam uniformizar. A cultura tende a destacar o que é único. O novo não surge quando repetimos algo que já recebeu aprovação coletiva. Ele aparece quando alguém encontra uma voz capaz de interpretar de modo inédito uma época, um território e uma memória.
No fim, toda tendência começou com o gesto discreto de alguém que decidiu não seguir outra tendência. As tendências podem apontar caminhos. Mas só a autoria pode transformar um lugar em linguagem, uma linguagem em cultura e, por fim, a cultura em futuro.